Respostas do presidente Lula: conferência "Chamada Global para a Ação Contra a Pobreza", no Fórum Social Mundial

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Porto Alegre-RS, 27 de janeiro de 2005

OBS: As perguntas foram feitas na seqüência e a fala do Presidente contempla todas as respostas.

Presidente: Posso pedir licença à mesa para começar pela última pergunta que me foi feita porque eu convivo com indagações como esta desde que comecei a minha vida sindical.

O problema é o seguinte: se nós ficarmos apenas reunidos entre nós, fazendo diagnóstico de que a situação está ruim, de que tem gente com fome, e se a gente não der passe para que a gente converse com aqueles que são responsáveis pela nossa fome, muito mais difícil será encontrarmos uma solução.

Desde a primeira vez que eu vim ao Fórum de Porto Alegre eu disse que era importante a gente vir aqui, diagnosticar as boas políticas, mas, ao regressar para os nossos países, deveríamos ter uma ação de fazer pressão em cima dos governantes, dos empresários e do sistema financeiro para que eles começassem a mudar de comportamento em relação a esse problema.

É por isso que eu acho que, em algum momento, vai ter que ter um encontro entre a Cúpula de Davos e a Cúpula do Fórum Social para discutirem concretamente os passos que têm que ser dados para se mudar a lógica perversa da distribuição de renda no mundo. Foi assim que eu fui a Davos, foi assim que fui a Evian, é assim que eu vou outra vez. Porque eu, que sou de um país pobre, não preciso me encontrar com outro presidente pobre para ficar discutindo a minha pobreza. Eu não preciso me encontrar com um presidente rico para ficar dizendo que eu sou pobre. Eu tenho é que dizer para ele que é preciso criar mecanismos para acabar com a pobreza, e só se eu estiver presente.

Eu tenho dito o seguinte, gente: nós não temos que ter medo de conversar com os nossos parceiros, sejam eles mais ricos do que nós. Nós temos que estabelecer uma linha de ação. Eu vou dar um exemplo para vocês, muito concreto: a guerra do Iraque. Me digam uma coisa: qual a insensatez que levou o presidente Saddam Hussein, sabendo que estava fragilizado? Vários países do mundo se ofereceram para intermediar o acordo. Poderia citar a França, a Alemanha, o Brasil. Vários de nós nos propusemos a intermediar, não queriam nem ouvir falar. Como é que alguém aceita que o seu país seja destruído, seja pela insensatez de quem destruiu, seja pela insensatez de quem poderia ter feito todos os gestos com outros parceiros, para que a gente resolvesse o problema? Não. Preferiu achar que podia fazer tudo e não fez nada. Hoje, nós temos o Iraque na situação que está, com milhares e milhares de mortos, de vítimas e a gente não sabe quando vai parar.

Então, eu acho que toda oportunidade que eu tiver de conversar com alguém, seja empresário, governante, seja qualquer pessoa, para resolver e ser solidário à política de combate à pobreza, podem ficar certos de que eu não medirei nenhum esforço e irei dizer para eles exatamente as coisas que eu digo, todo santo dia, no meu país. Porque no meu país eu já falei bastante, mas é preciso que os outros saibam o que nós estamos pensando.

Então, a minha tese é a seguinte: nenhum país tem que pedir favor, isso se chama pedir respeito, respeito é bom, a gente gosta de dar e a gente gosta de receber e, portanto, fazer o mundo mais justo. Não é apenas obrigação dos pobres chorarem, é obrigação dos ricos compreenderem que eles não conseguirão ter um mundo de paz se a gente não acabar com a miséria no mundo de hoje. Essa é a minha tese e é por isso que eu vou aos fóruns internacionais.

A questão da participação da mulher. Eu queria dizer para a companheira que fez a pergunta que eu me sinto feliz porque eu sou de um país em que, no meu partido, desde 1991, a participação política das mulheres é obrigatória nas instâncias deliberativas. Eu sou de um país em que a Central Sindical mais importante do meu país também tem determinado a participação proporcional das mulheres e, por isso, o Brasil tem as mulheres participando ativamente da vida política. É por isso que eu tenho uma ministra que coordena a Secretaria da Mulher, tem outra que coordena a questão da Igualdade Racial, tem outra do Meio Ambiente e tem outra de Minas e Energia. É porque eu acho que as mulheres também não têm que pedir favor.

Eu vou aproveitar e já vou responder à segunda pergunta. No Brasil, nós adotamos uma política de valorização da mulher muito interessante. Por exemplo, na questão da agricultura familiar. Nós temos um projeto para o homem, mas nós temos também um projeto de financiamento para a mulher agricultora, independentemente do seu marido. Quando nós fazemos a regularização de terra, dando os títulos, a gente não dá os títulos só para o homem, como antigamente, o título é dado em nome da mulher também, para ela se sentir dona daquela terra. No projeto Bolsa Família, o cartão de crédito é dado para a mulher, porque nós achamos que a mulher tem mais responsabilidade para cuidar da sua família do que nós mesmos, homens, e não temos vergonha de dizer isso nem aqui e nem em lugar nenhum.

A companheira Nilcéa acaba de anunciar na televisão brasileira a definição do Programa de Políticas Públicas para as Mulheres, depois de realizar conferências em muitos municípios do Brasil, nos 27 estados e fazer uma memorável conferência de 2 mil mulheres em Brasília, que definiu a política de participação das mulheres.

A questão da dívida brasileira e dos enfrentamentos que temos que fazer entre aquilo que queremos fazer e as contradições. Primeiro, Iara, eu acho que você tem claro e é importante que os meus companheiros do Fórum tenham claro. Desde que o Brasil foi descoberto, até 1994, o Brasil nunca tinha ultrapassado a sua dívida interna a 28% do PIB; nos oito anos, de 1994 a 2002, nós chegamos a ter a dívida a 58% do PIB brasileiro. O que é mais grave, Iara, e você bem conhece, porque você é do ramo, você também conhece, o que é mais grave é quando o Brasil já não tinha mais credibilidade de vender títulos, o que aconteceu? O governo dolarizou a nossa dívida pública interna. E nós, quando pegamos o governo, tínhamos 47% de dívida pública dolarizada. E você sabe o quanto isso deixava o país vulnerável, o quanto poderia ter havido uma fuga de capital, como houve em 1999. O primeiro passo que nós demos foi começar a comprar a nossa dívida em dólar para que a gente não tivesse vulnerabilidade.

Este ano nós conseguimos fechar o ano com apenas - apenas não, é muito - mas com 54% apenas do PIB da nossa dívida interna, o que é uma evolução. A Iara sabe, como todo militante sabe que o problema da dívida brasileira não é o montante, tem países que têm montante maior que o Brasil, o problema do Brasil é que, normalmente, a negociação se dá no curto prazo, ela vence. Este ano, Iara, vão vencer 300 e poucos bilhões. E o nosso superávit só vai dar 47%, portanto nós vamos ter que negociar o restante.

Eu trabalho, Iara, com a seguinte hipótese: não é pouco também o que nós investimos em política social. Eu vou dar um exemplo para você: nós saímos de 2 bilhões em políticas de combate à fome para quase 8 bilhões este ano. É muito dinheiro.

O Estatuto do Idoso incluiu 2 milhões e 800 mil brasileiros e brasileiras a mais, recebendo um salário mínimo. Eu estou dizendo de política direta. Se você analisar, Iara, que este ano nós vamos ter um rombo na nossa Previdência de 40 bilhões de reais e o que o Tesouro tem que colocar, portanto, foge daquilo que o contribuinte pagou, ou seja, você percebe que nós estamos fazendo um esforço imenso para fazer com que os aposentados recebam aquilo que têm direito. E, por isso, o Tesouro tem que colocar 40 bilhões a mais. Eu te confesso, Iara, que se a gente tem 50, 100 ou 150, ainda é pouco em função do acúmulo da dívida social neste país. É um acúmulo secular e nós temos que trabalhar, a cada ano que passa, para que a gente pague essa dívida social.

Eu trabalho todo santo dia com esse sonho. Muitas vezes, muita gente se queixa do superávit. Agora, com o superávit nós pagamos apenas uma parcela daquilo que nós devemos e o resto a gente vai ter que ir rolando. E eu gostaria de, um dia, poder ter um superávit capaz de pagar, para essa dívida diminuir definitivamente.

Por último, a questão de Nova Iorque, ou melhor, a questão do G-8. A diferença de a gente estar nesses lugares, eu disse na primeira pergunta, é porque você se encontra com as pessoas com quem você não conversa. Eu tive sorte porque, em apenas dois anos, eu consegui me encontrar com dezenas de lideranças mundiais que, possivelmente, eu terminasse o meu mandato sem encontrar. Não é fácil encontrar os presidentes. Não pensem que é fácil fazer uma reunião com o presidente de um país importante. É muito difícil. É muito difícil fazer reunião com os países pequenos porque, ou eles não têm dinheiro para viajar ou, muitas vezes, os países ricos não têm interesse em ir lá.

Então, em todos os fóruns internacionais, todos, sem distinção, que eu souber que tem dirigentes de outros países, e eu seja convidado, vocês podem ficar certos de que eu não deixarei de estar presente porque, para mim, política é relação humana, política é conversa, política é convencimento. E eu não sou daqueles de ficar sentado lá em casa, olhando para a cara da minha mulher, achando que as coisas estão ruins. Eu sou daqueles que saem para a rua para tentar fazer. É por isso que eu sou um homem extremamente feliz. Eu acho que nós já fizemos, em dois anos, o que alguns tentaram fazer e não conseguiram fazer em dez anos. E acho que vamos fazer muito mais. Podem ficar certos de que nesses próximos dois anos, se acontecer o que eu estou pensando que vai acontecer na América do Sul, as parcerias que estamos fazendo para desenvolver os países vizinhos, certamente, quando menos se esperar, a América do Sul será um continente altamente respeitado no mundo dos negócios.

Por isso, eu quero que vocês saibam que, se Deus quiser, em setembro eu estarei na ONU, outra vez. Podem ficar certos, com meu discursinho de 17 minutos, mas muito mais importante que o discurso são as reuniões que a gente faz nas ante-salas, com outros chefes de Estado. Um abraço, um aperto de mão já ajudam a gente a se aproximar e a quebrar barreiras. Por isso, eu acho que vou continuar fazendo isso, porque eu só tenho mais dois anos de mandato e eu não posso perder um segundo sequer me lamentando.

Um governante não pode se lamentar do que não fez. Ele tem que trabalhar para fazer tudo que for possível fazer.

Muito obrigado, gente, boa sorte. Que Deus abençoe a todos vocês.

Daqui a pouco vai entrar para fazer um pequeno show aqui, a nossa querida Portela, e o samba dela, o samba-enredo do carnaval deste ano é sobre as Metas do Milênio e eu quero que vocês ouçam, porque cada um de vocês, delegados que participaram do Fórum Social Mundial, tem a obrigação, pelo menos no dia de carnaval, de ouvir esta música até aprender, para a gente cantá-la, quem sabe um dia, na frente do prédio das Nações Unidas e, quem sabe, as pessoas fiquem muito mais sensíveis à luta contra a fome.

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