Segundo pronunciamento do presidente Lula na celebração do Natal de Jesus - Encontro com Moradores de Rua

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São Paulo-SP, 23 de dezembro de 2004

Eu vou deixar a nominata de lado para não ficar citando nomes que vocês já citaram, para dizer poucas coisas que eu tenho vontade de dizer.

Primeiro, nós brigamos muito para chegar onde nós chegamos. Eu digo, todo santo dia, que eu sou um homem que não tem o direito de reclamar das dificuldades, das adversidades, porque ninguém pediu para que eu fosse candidato a Presidente. Ou seja, eu não só fui teimoso como perdi três eleições até ganhar.

Era preciso criar as condições para provar que o Estado brasileiro pode estar mais a serviço da parte pobre da população. É preciso provar à sociedade brasileira que o Estado pode ter uma política que atenda a toda a sociedade, mas que demonstre claramente qual é a sua preferência.

A Marta perdeu as eleições. Agora, um dia, a história vai mostrar que São Paulo nunca teve uma prefeita, com origem na classe rica de São Paulo, que dedicou o seu mandato para fazer política para os pobres desta cidade.

Amanhã, podem surgir outros. Nós não queremos ser únicos. Aliás, nós queremos fazer o máximo que a gente puder e ser os últimos. Que os que venham depois de nós sejam tão infinitamente melhores que o povo fale: "Puxa vida, como melhorou a nossa cidade, a nossa rua, a nossa vida". E no governo federal é a mesma coisa.

Possivelmente, na história republicana ou dos governos democráticos do mundo, nós nunca tivemos nenhum país com um governo montado com as características do nosso. São nove ex-dirigentes sindicais, do Presidente da República ao Ministro da Fazenda, ao Ministro das Cidades. Quem não foi sindicalista foi advogado de sindicalista, advogado das pastorais operárias ou advogado de alguma coisa, mas foi ligado, ou advogado dos Sem-Terra, ou advogado dos direitos humanos.

Então, nós montamos um governo em que uma grande base é de pessoas oriundas das lutas sociais deste país. E as coisas não acontecem com mais rapidez, porque há uma estrutura que não foi construída por nós, uma estrutura mais do que secular, construída e moldada por gente que jamais imaginou que gente como nós iria chegar ao governo; portanto, as coisas não eram preparadas para gente como nós. E nós temos que ir fazendo as coisas da forma mais democrática possível, mais discutida possível, para que a gente vá construindo uma relação de confiança e de solidariedade entre pessoas que possam nos ajudar.

Eu vou dar um exemplo, o trabalho que o companheiro Aloízio Mercadante faz no Senado. Nós temos uma maioria que ora é maioria, ora não é maioria, no Senado. A cada projeto que chega lá, padre Júlio, o Aloízio Mercadante, o Suplicy e outros senadores nossos - porque somos apenas 14 e nós precisamos de mais de 40 votos - é um verdadeiro sacrilégio de conversas, de horas, de mudança de vírgula, de palavras, para que a gente possa construir um número suficiente para votar. Porque se a gente quiser fazer apenas o que a gente quer, a gente não aprova. E, não aprovando, a gente não tem as coisas que a gente precisa ter.

Então, é uma coisa muito interessante, porque todos nós vamos aprendendo a exercitar cada vez mais a democracia, cada vez mais a construção de maiorias, para que a gente possa fazer as coisas. Essa é a primeira coisa.

A segunda coisa, que é importante que vocês tenham clareza, é que não há nenhuma possibilidade de o Movimento não ser tratado com decência e com respeito pelo governo, qualquer que seja o Movimento.

Se o problema é se reunir com o Presidente, lá no Palácio do Planalto, é só chegar no Gilberto, que é o "infiltrado" lá no gabinete, ele trabalha a cinco, a dez metros do meu gabinete.

Na próxima vez que vocês forem ter a reunião da coordenação interministerial, eu quero que depois o Gilberto Carvalho organize para a gente ter uma conversa lá, para ver o que precisa apressar, porque os ministros são todos meus companheiros, irmãos de luta e fé mas, também, cada Ministério tem as dificuldades normais da burocracia e, de vez em quando, a gente precisa fazer as coisas serem apressadas, porque no rito normal as coisas demoram para andar.

Mas eu estou feliz, Júlio, dom Cláudio - posso chamá-lo de companheiro dom Cláudio, porque já corremos junto da Polícia, já nos escondemos juntos da Polícia, já fomos escorraçados de conjuntos habitacionais. Bem, dom Cláudio, eu vou terminar o ano feliz, eu acho que todos do governo que estão aqui estão felizes, muito felizes.

Ainda hoje eu gravei um programa de rádio desejando Feliz Natal, mas falando dos motivos pelos quais eu estou internamente e externamente alegre e feliz. Primeiro, porque tivemos um ano passado muito difícil que todos vocês conheceram e acompanharam pela imprensa. Não foi fácil o ano passado. E nós tivemos que ter medidas muito duras, medidas impopulares para que a gente pudesse construir, com o sacrifício de 2003, o direito de estar feliz em 2004, e preparados para estarmos mais felizes ainda em 2005, porque tivemos a coragem e a ousadia de fazer coisas que precisavam ser feitas. E feito isso numa harmonia entre o Poder Executivo, o Congresso Nacional, com permissão da sociedade - está aqui o companheiro Marinho, presidente da Central Única dos Trabalhadores que, muitas vezes, teve conflito interno com os seus companheiros, porque ele compreendia que era correta a reivindicação, mas compreendia também a impossibilidade do governo atender e não faltou com a sua lealdade, com o seu companheirismo.

E com esse apoio todo nós construímos as reformas que jamais alguém imaginou que pudessem ser feitas neste país: a reforma do Judiciário, a reforma tributária, a reforma política e tantas leis importantes que nós fizemos este ano, graças ao trabalho abnegado de senadores, com a competência extraordinária do nosso líder do governo, Aloízio Mercadante, do Suplicy e dos outros, e da compreensão de todo mundo.

O dado concreto, meus companheiros, é que nós chegamos a um momento muito bom. Os números da macroeconomia deste final de ano são, eu diria, melhores do que os que o mais otimista dos brasileiros poderia acreditar que seriam.

Eu me lembro que no ano passado nós fizemos uma reunião para discutir a questão da poupança interna, que estava em 17%, e nós queríamos chegar a 23%. Este ano ela está em 25.9%. Nós conseguimos diminuir a dívida interna brasileira em 6 pontos, neste pouco tempo que estamos no governo, numa demonstração de que as coisas estão normalizadas. Nós, dom Cláudio, saímos de um déficit de conta corrente de 32 bilhões negativos para 10 bilhões de dólares positivos. Nós estamos com essa coisa consolidada e isso me dá a tranqüilidade de que o plano de desenvolvimento que nós fizemos para o próximo ano vai permitir que a gente possa crescer muito mais.

Eu tenho algumas coisas, que são os meus maiores sonhos: o programa do Biodiesel no Nordeste. Nós vamos produzir biodiesel para tentar substituir o nosso óleo diesel. O biodiesel vai ser produzido no semi-árido nordestino, da mamona; vai ser produzido no Norte do Brasil, da palma, do dendê; vai ser produzido em outros lugares, da soja. Mas, preferencialmente, o projeto é para o semi-árido nordestino e para o Norte do país, para que aquela terra seca possa plantar mamona, gerar oportunidade de empregos e produzir um combustível que, no futuro, até a Itália vai comprar de nós, porque todo mundo vai ter que começar a utilizar biodiesel; o diesel é muito poluente, o óleo diesel do petróleo é muito poluente, joga no ar muito enxofre, muito CO2 e o biodiesel da mamona não só gera emprego como é menos poluente. Portanto a Europa rica vai ter que comprar o nosso biodiesel e a gente vai poder gerar muitos empregos neste país.

Estou otimista, também, porque vocês avançaram - eu acho que do ano passado para cá vocês evoluíram e podem evoluir muito mais até o próximo ano. Já estou assumindo o compromisso de voltar aqui outra vez. Vou voltar aqui no próximo ano para a gente comemorar e fazer uma avaliação sobre se houve avanço ou não, até porque vai ter outro prefeito e democraticamente, vocês vão convidá-lo, como gente civilizada convida, para vir aqui discutir, junto conosco, o encaminhamento disso. E nós temos que evoluir.

Quando nós entramos no governo, padre Júlio, a questão das cooperativas - o Aloízio conhecia bem - havia um medo enorme, no Brasil, de se criar cooperativa e não dar certo. Eu fiquei muito zangado, levamos um ano para convencer de que era preciso abrir cooperativas.

Hoje nós temos condições de organizar cooperativa em qualquer lugar, de qualquer categoria. E isso é um sonho que eu aprendi na Emília Romana, na Itália, e um pouco no Rio Grande do Sul, um pouco em Santa Catarina, que são os estados com mais experiência de cooperativa e, portanto, o povo teve muito mais possibilidade, porque acreditou nele e se organizou.

Então, meus queridos, estejam certos do seguinte: nós estamos longe de fazer tudo o que a gente quer fazer. Estamos longe. Mas podem ficar certos, como disse o companheiro Frei Beto, outro dia, para mim: "Nós estamos fazendo uma coisa ao inverso do que a humanidade conhece". A vida inteira nós falamos assim: "Se a gente quiser construir uma casinha, temos que começar a construir o alicerce primeiro, depois a parede e o telhado".

Acontece que como nós ficamos muito tempo na oposição, nós construímos um sonho que é uma verdadeira casa de sonhos. Os sonhos já estão construídos e, agora, o que nós estamos fazendo é o alicerce para sustentar esse sonho que nós construímos durante todos esses anos.

E podem ficar certos que nós vamos fazer. Porque eu não sou governo, eu estou governo, e estou lá porque acredito que é possível fazer, dom Cláudio, estou lá porque acredito que é possível fazer a transformação. Aquele Palácio não estava acostumado a permitir que os sem-terra entrassem lá, que os índios entrassem lá, que os negros entrassem lá, que os sem-teto entrassem lá. Aquilo é um espaço do povo, porque o povo é a força motora do processo democrático deste país e, portanto, se um rico pode entrar lá, porque um pobre não pode entrar?

E essas coisas nós vamos construindo. Vocês vão perceber que no ano que vem vocês vão estar muito mais organizados, vão ter muito mais conquistas. As cooperativas estarão funcionando melhor, vocês estarão produzindo muito mais, a reciclagem vai ter um avanço enorme neste país.

Como é a palavra de ordem aqui? "Coleta seletiva sem catador é lixo". O companheiro Patrus é quase considerado bispo pela Igreja de Minas Gerais, é um companheiro de muita sensibilidade social. Vocês precisam tomar cuidado com o Patrus, porque se vocês forem conversar com ele e falarem coisa muito emocionante, ele vai chorar e vai se esquecer das promessas e dos compromissos. Então, não façam ele chorar. Primeiro façam ele fazer os compromissos.

Ele é um companheiro que está 100% comprometido com vocês, e apanhou muito, esses dias, por causa do Bolsa Família. Eu disse para ele: "Só estão criticando porque é bom. Se fosse ruim, ninguém criticava". E nós vamos continuar, já chegamos a 6 milhões e meio. No ano que vem vamos chegar a 8 milhões e 700 mil famílias, e em 2006 vamos chegar às 11 milhões de famílias, que o IBGE disse que existiam neste país. E sabemos, dom Cláudio, que a Igreja é parceira nisso, sabemos que a Igreja é parceira em muitas coisas.

Eu fico muito feliz, porque parte desse dinheiro do convênio que vocês fizeram é para formação. Essa coisa da formação hoje, no mundo, é uma necessidade. É a gente criar as condições para que as pessoas possam aprender uma profissão, para que as pessoas possam se oferecer no mercado de trabalho para terem uma vida melhor do que têm hoje, porque se for para entrar no mercado de trabalho para ter coisa pior do que têm na rua, as pessoas preferem ficar na rua.

Nós temos que discutir a questão habitacional para os moradores de rua, sobretudo daqueles que vivem catando papel. Nós temos que ter consciência de que o catador não pode morar a 30, 40 quilômetros de onde trabalha, porque senão ele estará perdido: quando ele chegar outro já pegou o papel dele.

Então, isso é uma coisa de que nós poderemos cuidar, pode ser discutido na Comissão Interministerial, para a gente ir preparando, inclusive, os prédios públicos que existem na cidade, para ver se é possível adequá-los como moradia para uma parte das pessoas que estão aí.

Eu quero terminar dizendo o seguinte: tudo está por fazer. Tudo! Na reunião ministerial, o Gilberto Gil disse uma frase que eu achei muito bonita, que é o seguinte: "O povo sabe o que quer. Mas o povo também quer o que não sabe". E nós precisamos aprender com isso para fazer as coisas que têm que ser feitas no nosso querido Brasil.

O companheiro quer falar.

Manifestação de um morador de rua: (inaudível)

Presidente: Deixem eu só dar uma informação aqui. Nós temos feito convênios em vários lugares do Brasil. Nós temos feito vários convênios no Brasil com restaurantes populares a 1 real a comida. Aqui em São Paulo foi feito um negócio de hotel popular, não foi feito?

Manifestação de um morador de rua: (inaudível)

Presidente: Não, não. Nós vamos trabalhar. Gente, do fundo do coração eu quero, Júlio, primeiro te dar os parabéns pela sua dedicação, pela sua devoção neste negócio. Segundo, ao dom Paulo, nosso querido companheiro, que tem trabalhado... Dom Cláudio, que tem trabalhado conosco - é porque dom Paulo, também, dom Paulo estará entre nós em vida e depois da morte, porque ele é uma figura inesquecível no país, não é só na capital, São Paulo, é no Brasil. O dom Cláudio é um companheiro que eu conheci em momentos difíceis. Eu não conheci dom Cláudio na mesa de um restaurante, nem em um casamento. Eu conheci o dom Cláudio enfrentando a Polícia, por conta das greves de 1978, 1979 e 1980; por conta das ocupações nos conjuntos habitacionais. Eu construí uma relação de confiança com dom Cláudio e, por isso, eu não me canso de dizer que eu tenho não um Cardeal em São Paulo, eu tenho um companheiro que está sendo Cardeal e quem sabe, um dia, possa até ser mais do que Cardeal. Tem mais do que Cardeal? Tem. Então, quem sabe, possa ser mais do que Cardeal.

Do fundo do coração, gente, muito obrigado a vocês. Vamos rezar. E, no ano que vem, estaremos aqui outra vez.

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